sábado, 21 de março de 2009

Salve Jorge faz mostra de charges




Cinquenta trabalhos dos chargistas Angeli, Glauco e Jean, serão expostos a partir deste domingo, 22, no Bar Salve Jorge Centro. O trio faz tiras para o jornal Folha de S. Paulo. Batizada de “Página Dois – a charge e o humor mais picante de Angeli, Glauco e Jean”, a mostra aponta o olhar destes artistas frente à cena política nacional.

“Sou fã do trabalho deles. Brasília é um manancial de pornografia política e todos eles estão muito conectados com tudo o que está acontecendo por lá. Selecionamos os trabalhos por escândalo, sem deixar a estética de lado”, explica o curador Fernando Costa Neto.
Angeli começou a rabiscar seus primeiros desenhos quando ainda tinha 14 anos de idade. Desde a década de 1980 desenvolveu trabalhos sob a temática de humor anárquico. “Chiclete com Banana” é uma de suas obras mais conhecidas – lançada na década de 1980. Ela surgiu numa época de abertura política no Brasil.
Glauco é um chargista que queria ser engenheiro. Começou seu trabalho na década de 1970 no jornal Diário da Manhã, com a tira “Rei Magro e Dragolino”. Realiza trabalhos sobre as mudanças de comportamento, modas e hábitos. Seus desenhos são feitos em papel, com nanquim. Jean também tem suas charges publicadas no Jornal Folha de São Paulo.
Um pedaço da história. Um pouco dos artistas
Os quadrinhos no Brasil surgiram no momento em que apareceram as indústrias gráficas, com as respectivas impressões de livros, jornais e revistas, em meados do século XIX. Naquela época já havia surgido os traços da caricatura. Contam alguns veículos especializados em quadrinhos que a figura de Ângelo Agostini, um cartunista italiano radicado no Brasil, foi fundamental para o surgimento da arte no país. Agostini era dono de desenhos de tons cômicos.
Avançando um pouco mais no tempo, duas figuras carimbadas dos quadrinhos brasileiros não podem ser esquecidas: Ziraldo e Maurício de Souza. Este, com a criação de A Turma da Mônica (desenhos com histórias sobre as aventuras de Cebolinha, Mônica, Cascão, Magali etc) e aquele, com O Menino Maluquinho (histórias e aventuras de um garoto levado).
Os quadrinhos no Brasil também tiveram momentos mais sérios, durante a história política do país. No jornal O Pasquim, por exemplo, Henfil e seu desenho mais politizado deram tom aos traços desenhados contra a ditadura militar. Seu humor, na época, estava diretamente ligado à defesa da classe trabalhadora. Mais contemporaneamente, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá já alcançaram o reconhecimento internacional. Quando adolescentes inventara, o fanzine “10 pãezinhos”, que hoje tem um formato de blog. A dupla já ganhou o Eisner Awards, o Oscar da área.



Compartilhar é preciso?

Quem propaga informações pela internet vê seus arquivos, disponíveis para aquisição comercialmente ou não, desaparacerem. Tirar do ar os conteúdos resolverá a situação das gravadoras?
Os últimos capítulos da cruzada empreendida por gravadoras, estúdios e entidades anti-pirataria contra o compartilhamento de produtos culturais pela Internet mostram que a disputa no mundo virtual está mais forte do que nunca. Nessa segunda-feira, 16 de março, quase 756 mil membros da comunidade do orkut Discografias ficaram sem seu passaporte para baixar obras inteiras de artistas para download. Uma nota publicada no Orkut explica que o Google tomou essa decisão devido à pressão de órgãos de defesa de direitos autorais como a APCM (Associação Antipirataria de Cinema e Música).
Não é a primeira vez que sites que compartilham áudios e vídeos - muitos deles não acessíveis comercialmente - são tirados do ar. Canais do YouTube como o Aberturas de Novelas e o blog Som Barato foram fechados em condições aparentemente semelhantes. Ambos foram notificados e, de acordo com seus donos, respeitaram os avisos, tirando imediatamente do ar os conteúdos considerados ilegais. Mesmo assim, foram eliminados da rede.
O analista de sistemas Bruno Rodrigues foi um dos que viu seu site sumir de repente. Ele comandou o blog Som Barato até seu conteúdo ser excluído, em setembro de 2008. O endereço contabilizava um total de 6 milhões de visitas, com uma média diária de 10 mil pageviews. Era um ponto de encontro de amantes de música brasileira com pouco mais de 2 mil álbuns disponíveis para download. "O site disponibilizava um acervo de frevo e música psicodélica setentista recifense, por exemplo, que não existia em outro lugar na internet, muito menos no mercado", conta Rodrigues.
A notificação que causou o encerramento da conta estava relacionada a discos comercializados pela Biscoito Fino. Rodrigues explica que o site continha 25 discos do catálogo da gravadora e, por isso, foi notificado pelo departamento jurídico do Google. "Eu prontamente tirei, porque a ideia nunca foi peitar gravadora", diz, lembrando ainda que o site era uma forma de divulgação dos artistas. "Nos sentimos na liberdade de postar uma nota de repúdio ao pedido da gravadora, que na nossa opinião, só tem a perder mercado se continuar se mostrando alheia à internet e sua evidente troca de mídias", argumenta.
Hoje, o Som Barato ainda existe, capitaneado por outras pessoas. E a questão da legalidade foi contornada por meio da tecnologia BitTorrent. "O novo site é apenas um apontador para arquivos torrents que são postados pelos leitores em servidores do Pirate Bay, que não tem nada a ver com o Som Barato", conta. Essa tecnologia tem sido cada vez mais adotada pelos deletados virtuais. Isso porque, como se trata de uma rede completamente descentralizada, em que vários usuários ao mesmo tempo enviam e recebem pedaços de arquivos de várias pessoas, há uma grande dificuldade de culpabilizar uma única pessoa pelo download. Ou de tirar os conteúdos do ar.
Fabio Sexugi, o criador do Canal Aberturas de Novelas, também afirmou ter se disposto a obedecer à notificação da Sony que reportava conteúdo supostamente ilegal - um vídeo de 15 segundos que mostrava a Turma do Balão Mágico cantando com Fábio Jr. "Era um trechinho que nem chegava ao refrão", diz o aficcionado por aberturas de novelas que as gravava em fitas VHS desde a década de 90. Mesmo assim, em 29 de janeiro desse ano o canal, então com 1244 vídeos, foi tirado do ar. Pouco depois de outro semelhante, o Mofo TV, ter sido apagado e, dias mais tarde, migrar para o MySpace. O canal nasceu de uma comunidade que conta até hoje com mais de 10 mil membros no Orkut.
O responsável por 90% do material do Aberturas de Novela condena o prejuízo do lucro de gravadoras, estúdios e redes de TV. Por isso mesmo, deixava um recado no site explicando que não era para usuários copiarem os trechos, apenas para assisti-los. E afirma não entender o porquê da proibição do conteúdo pelo qual foi notificado. "Não acredito que a Sony tenha interesse em relançar esse vídeo", diz. Hoje ele estuda a possibilidade de colocar novamente os conteúdos no ar, mas ainda não decidiu onde e em qual formato. Ironicamente, os arquivos gravados por Sexugi estão disponíveis ainda hoje na rede graças à desobediência dos usuários, que os disponibilizam agora em outros canais e sites.
Sexugi é professor de latim, morador de Peabiru (PR). Ele postava seus vídeos na hora do almoço e em outras folgas. Assim como ele, a grande maioria dos que disponibilizam esses materiais não são remunerados para isso. "A motivação é compartilhar, ter contatos com outras pessoas que gostam dos mesmos conteúdos", explica o criador do Aberturas de Novelas que ficou conhecido por, ao final de cada vídeo, colocar imagens de pessoas desaparecidas.
Outro site que teve seu fechamento solicitado pela APCM foi o Legendas.tv, ferramenta fundamental para os fãs de séries que não falam inglês. No início de fevereiro ele foi notificado, mas não chegou a fechar definitivamente. Os organizadores preferiram migrar de datacenter e, hoje, a hospedagem depende do julgamento do Pirate Bay, na Suécia.
Procurado pela reportagem, o Youtube afirmou apenas que não comenta casos específicos, mas que o procedimento padrão é excluir os conteúdos somente após três violações dos termos de uso - o que não se encaixaria em muitos dos casos relatados.
Para o doutor em direito das relações sociais e especialista em direito de comunicação Cláudio José Langroiva Pereira, "a sociedade é muito mais rápida que a legislação". Segundo ele, uma das primeiras atitudes possíveis para as gravadoras retomarem suas vendas é baixar os preços. E repensar seus modelos de negócios. O especialista afirma que a legislação ainda não dá conta das potencialidades das ferramentas de troca e que não há jurisprudência sobre essas questões. O que significa na prática que, assim como o Google pode decidir tirar conteúdos do ar ao ser pressionado por gravadoras e associações anti-pirataria, um conteúdo disponibilizado de forma pública, desde que não seja usado para obter lucro, pode ser copiado para uso doméstico sem que isso seja considerado crime.
E são baixados. E alguns músicos já mostram ser a favor disso. A contragosto das gravadoras, artistas como Ed O'Brien, do Radiohead, Annie Lennox e Billie Bragg defendem os internautas que compartilham músicas pela Internet. Na semana passada, a The Featured Artists Coalition, que reúne mais de 140 bandas e cantores, se manifestou contra o projeto de lei que criminaliza fãs por baixar músicas.
Mesmo com os fechamentos consecutivos de canais, blogs e outros sites, grandes gravadoras como Warner Music, Sony BMG e EMI registram prejuízos consecutivos em alguns de seus últimos balanços. O que aponta que gastar menos energias censurando conteúdos e, em vez disso, pensar em novos modelos de negócios que aproveitem a internet para a promoção e venda de seus artistas pode gerar melhores resultados. Até para sua imagem.

Novidade à vista


Os meios digitais transformaram o relacionamento entre livro e o usuário. Descubra os novos hábitos de leitura e escrita dos jovens brasileiros dentro e fora da internet.



A internet vem substituindo a estante como local onde as pessoas baixam seus textos, mas, apesar de irreversível, a tendência não irá pôr fim ao papel tão cedo. Segundo especialistas no assunto, os novos hábitos incentivam uma maior proximidade com as letras e coexistem naturalmente com os antigos na cabeça da maior parte dos leitores brasileiros: jovens que não chegaram à maioridade.Os livros eletrônicos (ebooks), blogs e afins mexem não só com o mercado editorial, mas principalmente com as práticas educacionais. “Mesmo as classes menos favorecidas estão próximas do computador, através de lan-houses, casas de amigos e etc. Na internet, podemos ter formas coletivas de aprender, onde o aluno não é apenas um receptor. O professor se torna um integrador, um problematizador. Não se trata de levar o aluno ao laboratório, mas de levar os computadores para sala”, explica a pedagoga Maria Teresa de Assunção, autora do livro “Leitura e escrita de adolescentes na internet e na escola”.A grande quantidade de jovens leitores transparece na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em 2008. Segundo os dados, as três obras mais importantes da vida dos brasileiros são: a Bíblia, O Sítio do Picapau Amarelo (uma referência à obra de Monteiro Lobato, uma vez que o título inexiste como um único livro) e Chapeuzinho Vermelho. Se a lista soa ingênua, o mesmo não se pode dizer das novas práticas de escrita entre as crianças, como a criação de fanfics, abreviação para o termo “fan fiction” ou “ficção feita por fãs”. Trata-se de recriação de histórias conhecidas, com enredos ou personagens que não constam na referência inicial, geralmente histórias de desenhos animados.“Se acompanhada de um educador, os fanfics são uma grande ferramenta. Existe um grande interesse pela escrita e há um forte empreendedorismo dos jovens neste sentido. Vários autores renomados também já fizeram algo semelhante aos fanfics. Fernando Sabino e Lygia Fagundes Telles escreveram romances baseados em Dom Casmurro. Há diversas continuações para os livros de Conan Doyle”, afirma Cláudio Soares, editor do PontoLit, revista eletrônica sobre o impacto da tecnologia na leitura e escrita.Os dados Instituto Pró-Livro indicam ainda que os usuários de internet são os que dedicam mais tempo à leitura em geral. Em média, passam semanalmente cerca de 2 horas e meia se dedicando a esta atividade. "Os jovens estão lendo e escrevendo mais e por conta própria, fora da escola. No caso da internet, dizem que as pessoas escrevem errado, mas é um código totalmente adequado àquele canal. Ele trás marcas da oralidade, tem por objetivo a velocidade", afirma Maria Teresa.Segundo Galeno Amorim, coordenador da pesquisa Retratos da Leitura, a Câmara Brasileira do Livro lidera atualmente um grande esforço para aproximar os brasileiros das letras. Trata-se da recriação do Instituto Nacional do Livro, órgão governamental criado em 1937 por Getúlio Vargas e extinto em 1990 por Fernando Collor. O novo Instituto teria a função de servir como indutor de políticas públicas relacionadas à leitura, permitindo que a Biblioteca Nacional se foque na preservação e ampliação de seu patrimônio.“Os governos Sarney e FHC fizeram algumas ações nesta área, mas menos do que se esperava de dois presidentes ligados umbilicalmente aos livros. Ambos são autores e o primeiro é membro da Academia Brasileira de Letras. Curiosamente, foi no governo Lula, criticado por não ser um leitor contumaz, que tem havido os maiores avanços nesta área. Mas isso não significa que as coisas estejam boas: ainda precisa de muito para o Brasil virar um país de leitores”, analisa Galeno. Palavras em bitsApesar de parecer recente, a aproximação entre literatura e computadores nasceu muito antes da internet. No final da década de 60, o cientista norte-americano Harold Wooster projetou aquilo que pode ser o primórdio dos livros eletrônicos. Seria um dispositivo de plástico capaz de ler informações em micro-fichas. Algo bastante simples, se comparado aos equipamentos atuais do tipo.
“Os ebooks tendem a se caracterizar mais como um serviço, não como produto. É como se fosse um local de encontro entre os vários leitores. Criam-se redes sociais a partir do livro, que não será apenas texto, mas terá também outras mídias. Será preciso encontrar novos modelos para cobrar por isto. O próprio conceito de copyright deve ser repensado”, diz Cláudio Soares.
Tido como um característica da literatura eletrônica, o hiper-texto também é muito anterior à rede mundial de computadores. As notas e os índices dos livros comuns podem ser considerados como tais. Com as novas tecnologias, a diferença é a possibilidade de saltar rapidamente de uma parte a outra. "O livro trás uma leitura linear. Na internet, você faz um percurso que surge a partir de cada leitura, da intervenção naquilo que está sendo lido. De certa maneira, a leitura hiper-textual é mais autoral”, explica Maria Teresa.


domingo, 1 de março de 2009

Ouça trilhas sonoras das obras de Pedro Almodóvar




A Web Rádio do Centro Cultural São Paulo traz músicas dos filmes de Pedro Almodóvar. As trilhas sonoras de Carne Trêmula, Fale com ela, Volver e outros fazem parte da mais nova edição do Cine Som do CCSP.

Acesse:

Qual o destino dos livros depois da reforma ortográfica?




O novo acordo ortográfico dos países lusófonos trouxe, além da unificação da língua escrita, também algumas inquietações a editores e escritores: os livros que não ganharem reedições ficarão datados? Sofrerão desvalorização? O que fazer com os acervos bibliográficos?

Caem tremas, hífens, acentos diferenciais e começam as preocupações de escritores, editores e educadores. Com o novo acordo ortográfico, uma grande quantidade de material editorial terá de ser revisada, substituída, descartada. Alterações que envolvem esforço e investimento. As editoras já prepararam novos exemplares dos livros didáticos e paradidáticos, incluindo os destinados à compra governamental. Mas o mesmo não aconteceu com a literatura adulta, sem cota prevista de vendas. O escritor Fernando Molica preocupa-se com um possível desaparecimento de títulos. Molica tem quatro livros publicados - o último deles, O Ponto da Partida, em 2008, ainda sob a ortografia antiga.
O escritor prevê que, com as novas regras, os livros escritos na grafia antiga tenham uma vida útil de apenas dois anos. "Depois disso, quando o leitor já estiver habituado, a escrita velha vai causar um estranhamento, um desconforto". Ele questiona o que vai acontecer com os que não passam da primeira edição. "Temo uma retirada de catálogo, uma limpeza de estoque, e fico com muito medo da produção contemporânea brasileira sumir. A gente corre o risco de perder conteúdo", explica.
Nas livrariasOs editores não compartilham desse medo. Eles argumentam que o que determina a permanência ou não das obras no mercado é a demanda, e garantem que o sumiço está fora de questão.
"Na verdade, o que comanda a reedição é o interesse do mercado, na medida em que o estoque acaba. O público é quem pede. Não vamos reeditar um livro com uma tiragem mínima de três mil cópias, mas que vendeu 800. Mas também não vamos retirá-lo do mercado", afirma Sérgio França, coordenador editorial da Editora Record.
Ele diz que a reimpressão de uma obra não é condicionada pela reforma, mas pela venda. E, segundo França, o controle sobre o mercado foge, inclusive, da alçada das editoras. "Hoje, o livreiro é quem regula esse mercado. Poucas livrarias mantém estoque. O livreiro tem exposto o que está vendendo, e devolve o que foi adquirido em consignação".
Ele prevê, contudo, uma desvalorização das obras marcadas pelo tempo. "Elas podem acabar entrando em liquidação". No entanto, assegura que não vão desaparecer: "O leitor que quiser um exemplar fora das lojas pode encomendar direto na editora".
Carlo Carrenho, publisher do selo Thomas Nelson Brasil, associada da Ediouro, concorda: "A decisão de reeditar independe da reforma ortográfica. A preocupação com reedições não é grande por que são livros perenes. Mas para os casos especiais, os best-sellers, uma reedição adaptada à nova reforma pode dar, inclusive, um 'novo gás' a um produto que já tem êxito", diz Carrenho.
Revisar obras em sua segunda edição e arcar com esses custos só vale para esses casos especiais, segundo Carrenho. "Mas o livro que não for reimpresso vai continuar onde ele está. Ninguém vai recolher", reitera.
Nas bibliotecasDistanciados das urgências do mercado, os acervos bibliográficos não devem dispensar títulos, mas pensam em como farão para orientar seus leitores. Celina Cattini, vice-diretora do colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, afirma que as cinco bibliotecas da escola, que somam mais de 70 mil títulos, estudam como fazer para preservar seu acervo e, ao mesmo tempo, alertar os alunos.
"Os livros didáticos e paradidáticos que adotaremos a partir desse ano já estão atualizados. Mas temos um acervo que inclui enciclopédias, livros antigos que não serão revistos. Esse material é riquíssimo e não será descartado, porque seu valor literário e histórico independe da nova ortografia".
Cattini reconhece ainda algum potencial educativo dos livros que preservarem a antiga grafia: "Temos inclusive livros anteriores à reforma ortográfica de 72. Eles podem ser enriquecedores para uma análise da mudança da língua ao longo do tempo. Mudança não só ortográfica, mas de vocabulário, de noções de formalidade". O desafio, agora, é colocar em prática o alerta aos leitores sem afastá-los dos livros antigos. O que o colégio ainda estuda como fazer.


Uma reforma para quem? Para Fernando Molica, é preciso questionar a pertinência da reforma. Ele critica o fato de ela não refletir as alterações do idioma falado e a aceitação passiva por parte dos brasileiros. "Para que serve essa reforma se ela não unifica o idioma? Estive em Portugal em maio do ano passado. Lá, eles viam a reforma como uma invasão brasileira. A língua é patrimônio. E não estou falando de intelectuais, é do povo. Aqui, não há esse sentido de propriedade do idioma. Houve uma aceitação mais passiva, com menos discussão".
Nem o propósito de criar um idioma único foi atingido, segundo Carlo Carrenho "É um luta inglória. Para manuais técnicos, tudo bem, mas na literatura, há muito mais do que a ortografia. Existem diferenças no vocabulário, e na estrutura gramatical escolhida." Por isso, a expectativa de ampliar-se o mercado com as possibilidades de exportação para os mercados africanos e de Portugal - apontada como uma das grandes vantagens da reformulação -não deve se concretizar.
E você, que destino acredita que terão os livros depois da reforma ortográfica?


Por Anna Carolina Raposo



Texto retirado de: http://bravonline.abril.com.bR






quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CARNAVAL - Dioníso domesticado

"...o espírito apolíneo conseguiu, por meio da sua ilusão, uma vitória completa sobre o elementos dionisíaco primordial...."
F. Nietzsche - A Origem da Tragédia, 1886


O Carnaval é a festa profana mais antiga que se tem registro, provavelmente, com o sentido atual de folgança coletiva e inversão das posições sociais, já existe há mais de três mil anos. As suas raízes mais remotas encontram-se na Grécia Antiga, no culto a Dionísio, o deus da vindima, que mais tarde foi celebrado em Roma como Baco, espalhando-se para os países de cultura neolatina.
As Origens Primordiais da Festança
Dionísio, mais conhecido entre nós como Baco, era um deus bastardo para os pagãos. Perambulara por muito tempo pela Ásia Menor até que, conta a lenda, pelas mãos do sacerdote Melampo, introduziu-se nas terras gregas. Tornou-se um sucesso. Conforme as plantações de parreiras se espalhavam pelas ilhas da Grécia e pela região da Arcádia, mais gente o celebrava. Em todas as festas no campo ele se fazia cada vez mais presente. Por essa altura, já entronado como deus das vindimas, representavam-no como uma figura humana, só que de chifres, barbas e pés de bode, com um olhar invariavelmente embriagado.
As Bacantes
Consta que as primeiras seguidoras do deus Dionísio, há uns 3 ou 3,5 mil anos atrás, foram mulheres que viram nos dias que lhe eram dedicados um momento para escaparem da vigilância dos maridos, dos pais e dos irmãos, para poderem cair na folia "em meio a danças furiosas e gritos de júbilo", como disse Apolodoro, testemunha duma daquelas festas. Nos dias permitidos, elas, chamadas de coribantes, saíam aos bandos, com o rosto coberto de pó e com vestes transformadas ou rasgadas, cantando e gritando pelas montanhas gregas. Os homens, transfigurados em silenos e sátiros, não demoraram em aderir às procissões de mulheres e ao "frenesi dionisíaco". A festança que se estendia por três dias, encerrava-se com uma bebedeira coletiva em meio a um vale-tudo pansexualista.
Um mundo invertido
Nos primórdios do culto a Dionísio, as autoridades (as cortes, os sacerdotes e os ricos) não gostaram nada daqueles festejos malucos. Entre outras razões porque eram as vítimas favoritas das sátiras. Os festejos bacantes, como é sabido, além de serem um teatralização coletiva da inversão de tudo, serviam como um acerto de contas do povo com os seus governantes. Ainda que metafórico e psicológico. Neles, o miserável vestia-se de rei, o ricaço de pobretão, o libertino aparece como guia religioso, e a rameira local posava como a mais pura donzela, machos reconhecidos vestem-se como fêmeas, e assim por diante. Dionísio brincalhão, irreverente e debochado, estimulava que virassem o mundo de ponta-cabeça.
A repressão fracassou. Foi então que no século VI a.C., Pisístrato, o tirano de Atenas, oficiou-lhe homenagens. Não só isso. Construiu-lhe um templo na Acrópole: o teatro Dionísio, que está lá até hoje. Organizou em seguida concursos de peças cômicas ou dramáticas para celebrá-lo no palco, iniciando assim em Atenas a política do amparo às artes cênicas pelo Estado.
Apolo e Dionísio
Erwin Rohde, um colega de Nietzsche, interpretou a transformação de Dionísio de um irreverente deus das folganças num ente oficioso, à interferência de um outro deus: Apolo, o deus Sol. Sendo este uma divindade do Estado, ele não podia permitir que aquela subversão dos costumes ficasse solta pelos campos a provocar loucuras, incitando os pobres à desordem e ao deboche. Apolo então atraiu Dionísio para dentro da cidade com ofertas mil, e, como sócio maior, domou-o. Em Roma, com as saturnais, as incríveis e desregradas festas populares que se davam em dezembro, deu-se praticamente a mesma história. Em Veneza ou em Nova Orleãs, em Salvador da Bahia ou no Rio de Janeiro, o deus bastardo da bebida e do atrevimento, tornou-se amansado pela política envolvente do deus do Sol, Apolo.
O Carnaval Brasileiro
O carnaval brasileiro, trazido pelos portugueses no século 17 com o nome de entrudo, é um herdeiro direto das bacantes e das saturnais greco-romanas. E, pode-se dizer, ao longo desses três séculos em que tornou-se na maior festa popular do Brasil, percorreu a mesma trajetória de acomodação dos seus antecessores. A plebe colonizada imediatamente aderiu ao entrudo como um imperdível momento de inverter, ainda que simbolicamente, o mundo desgraçado em que vivia. Naqueles dias tão aguardados, quando a troça assumia ares de majestade, nenhum fidalgo ou pomposo qualquer, nada que fosse solene, oficial ou sublime, escapava da mordacidade dos festeiros do rei Momo (deus pagão menor que presidia os festejos carnavalescos em Roma).
Domesticando Dionísio
No Brasil, Apolo - a lógica do interesse do Estado - igualmente interviu. A partir de 1935, com o crescente centralismo estatal determinado pela Revolução de 1930, começou-se a sufocar a salutar espontaneidade popular submetendo os desfiles populares a regulamentos, horários e trajetos a serem cumpridos à risca. É a ordem da desordem! Seduziram Dionísio - em troca da obediência às regras de boa conduta - com promessas de honrá-lo em lugares especiais, próprios (sambódromos, passarelas de samba, concursos, prêmios, etc.), acertando em troca o fim da zombara e do ridículo em que antes os seus seguidores, os celebrantes de Baco, submetiam os poderosos naqueles três dias de tumulto e beberagem. Desde então as escolas de samba do Rio de Janeiro, e as outras que as imitaram, enfiaram-se numa camisa-de-força.
Contendo a irreverência
Caíram na armadilha de Apolo. Para exibirem-se ao grande público precisavam de dinheiro, que, como se sabe, só se encontra nos bolsos dos figurões, públicos ou privados. Impedidos moralmente de ridicularizarem ou glosarem os patrocinadores que os mantêm e amparam, os sambas-enredo - expressão musical do Dionísio acomodado de hoje -, esvaziados da irreverência e da gostosa safadice, não dizem mais nada. Comumente a cantoria é só elogio e reverência, quando não propaganda aberta de quem financiou o desfile. O luxo das fantasias e a parafernália dos alegóricos cerceia qualquer gesto mais solto, espontâneo ou original, liberando-se apenas a sensualidade, exposta em nichos especiais, não mais acolhendo o elemento de contestação divertida. O resultado disto é a mesmice. Quem assiste a um só desfile de escola de samba - ainda que reconhecendo estar frente a um dos maiores espetáculos populares da Terra - viu a todos, os que passaram e os que ainda virão. Domesticaram Dionísio!
Voltaire Schilling

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O centro do mangue


Há doze anos faleceu Chico Science. Injetando modernidade na tradição, sua geração criou o manguebeat em Pernambuco e inovou a música brasileira.


No fevereiro próximo, completam-se doze anos desde a trágica morte do cantor e compositor Francisco de Assis França, mais conhecido como Chico Science. Um acidente de carro entre Recife e Olinda foi responsável por destituir a banda Nação Zumbi de seu líder. Chico foi um dos responsáveis pela criação do manguebeat, um movimento cultural que tirou a capital pernambucana do marasmo artístico no início dos anos 90.
Uma das regras básicas do manguebeat é modernizar a tradição musical local. Daí a metáfora de enfiar a antena parabólica (elemento tecnológico de contato com o exterior) na lama do mangue para, antropofagicamente, deixar-se atingir pelas boas vibrações e “envenenar” os gêneros regionais com as novidades do rock, da soul music, do rap e da música eletrônica.
Apesar de tais idéias terem sido levantadas por DJs, músicos e agitadores culturais, foi Chico Science um dos principais norteadores da nova música de Recife. Até então, poucos haviam percebido as possíveis relações entre a força dos tambores do maracatu e os riffs distorcidos da guitarra no rock. As proximidades entre as cadências rítmicas do canto na embolada e no rap permaneciam inexploradas. Nenhum outro havia colocado a rítmica ondulante da ciranda na música pop ou o groove da soul music na síncope do maracatu, nem houve compositor que tivesse conseguido desenhar a cidade de Recife com suas cenas de violência e desigualdade e seus personagens, de forma tão simples e pungente.
Chico foi o criador de frases como “A estrovenga girou / passou perto do meu pescoço / corcoviei, corcoviei / não sou besta seu moço / (…) / vou juntar a minha nação / na terra do maracatu / Dona Ginga, Zumbi, Veludinho / segura o baque do Mestre Salu” (O Cidadão do Mundo, CD Afrociberdelia). Neste trecho, ficam claras a utilização de expressões populares (estrovenga é um tipo de foice e corcovear significa curvar o corpo) e a citação de personagens de maracatus conhecidos em Recife.
Science era ouvinte atento dos sons da rica tradição pernambucana e das novidades do mundo da cultura pop, das tecnologias digitais, da Internet e da teoria do caos. Tais conhecimentos aparecem em praticamente todas as suas composições, tanto nas letras como também nas estruturas rítmicas, instrumentais e nas formas de canto. Observador do contexto e dos personagens recifenses, lia com a mesma atenção livros de Josué de Castro (médico e geógrafo que estudara os catadores de caranguejo de Recife) e publicações de histórias em quadrinhos, em especial as de Jacques de Loustal, quadrinhista francês cujo sobrenome foi usado para nomear a banda que deu origem à Nação Zumbi (Loustal).
Um dos motores da proposta do manguebeat era a crítica às proposições do movimento armorial, criado nos anos 1970, em Pernambuco, pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna. Os armoriais defendiam um retorno às raízes da música do sertão, como uma busca do som primordial brasileiro, longe das misturas e do comercialismo trazido pela tropicália no final da década de 1960. Para tanto, juntaram os sons sertanejos às experiências de músicos eruditos para a criação, por exemplo, da Orquestra Armorial e do Quinteto Armorial. Tal mescla é nítida também nos trabalhos de músicos como Antônio José Madureira.Por mais que essas experiências musicais tivessem gerado ótimas composições, a presença de Suassuna em órgãos oficiais ligados à cultura fazia com que as atenções se direcionassem a esse tipo de música. Os jovens que propunham outras manifestações não encontravam espaço na cidade. Daí as ações críticas contra a posição aparentemente conservadora das políticas culturais inspiradas nos armoriais.Por isso também, o manguebeat é muito mais do que Chico Science. Envolveu ações na imprensa, promoção de festas e apresentações com produção cooperativa e criação de festivais de música pop com a presença de artistas tradicionais (Selma do Coco, Mestre Salu, Lia de Itamaracá, entre outros). Ao mesmo tempo, se muitos jovens músicos ajudaram a criar a cena mangue, Science era o centro de convergência, a pele sensível ao toque da informação, o cérebro criativo das misturas. Mais de uma década após, o manguebeat ainda é visível em Pernambuco. Diversos shows de novos artistas da região em espaços criados pelos poderes públicos locais mantêm a alta temperatura da criatividade musical. Quatro grupos são bons exemplos desta continuidade: Treminhão, um trio instrumental que mistura ritmos regionais com o jazz; Mombojó, que usa recursos da música eletrônica; Cordel do Fogo Encantado, grupo do interior do estado mais ligado às tradições; e Siba e a Fuloresta, ex-integrante da banda Mestre Ambrósio. Há, claro, ainda os artistas da cena inicial, como Mundo Livre S.A., DJ Dolores e a própria Nação Zumbi.


Herom Vargas
Retirado de http://www.revistadehistoria.com.br/